O Linfedema da Filaríase

Infelizmente, grande parte dos países em que a filária  é endémica são países muito pobres e com grandes debilidades sócio económicas.
Predominam os países Africanos e Asiáticos, como podemos ver no mapa anexo, onde o controlo do principal vector, o mosquito (o mesmo da Malária, mas outras formas de mosquito também podem estar envolvidas), ainda se encontra longe de estar debelado.

A Nigéria, apesar das impressionantes imagens mostradas no vídeo que ilustra este comentário, é um dos países mais desenvolvidos de África.

Lagos, a sua capital, tem 21 milhões de habitantes, e o petróleo (como principal fonte de riqueza) tem feito com que o desenvolvimento sócio económico seja dos maiores de África competindo com, e mesmo ultrapassando o da África do Sul.

Contudo, continua neste país como noutros de África, a morrer-se de Malária, de SIDA e doenças pouco habituais como o atual surto de Ébola. Isto revela ainda condições sociais muito baixas, deficiências no controlo dos vectores associados a estas doenças e muito trabalho a realizar (na maioria dos casos por ONGs), na prevenção e tratamento destas doenças, e no aumento da esperança de vida.

A filaria com envolvimento linfático, entra assim como uma doença incapacitante mas não mortal, o que a nosso ver faz com que o tratamento seja mais negligenciado, chegando-se, pelas carências sociais, às formas elefantíasicas que são vulgarmente registadas nestes países.

Este doentes tem efetivamente  grande morbilidade e são, na maioria dos casos, alvo de  exclusão social.


A Farrajota
Falo com algum conhecimento da realidade. Em 1991 acompanhei a primeira missão que o meu ex. Director, Dr. Armando Farrajota, realizou à Guiné Bissau e que tinha como objectivo o estudo e tratamento do linfedema associado á filaríase.

Nessa altura a Guiné-Bissau vivia uma fase tranquila em termos políticos , mas as carências eram muito marcantes quer em meios humanos quer em condições de trabalho.

O nosso primeiro contacto com uma doente com linfedema/elefantiase teve lugar no mercado da cidade  onde uma mulher com um marcado linfedema se dedicava à mendicidade.

Um apelo pela rádio fez com que só num dia, na região norte da Guiné - Cacheu - tivessem vindo ao nosso encontro, cerca de 90 doentes com elefantíases marcantes, esperando que conseguíssemos alguma resolução da situação.

Alguns, com mais possibilidades, tinham sido operados em Dakar. Contudo apesar dessas cirurgias continuavam com infecções de repetição.

No Hospital Central de Bissau – Simão Mendes - vimos algumas formas agudas de filaria linfática com marcante envolvimento proximal dos membros.

Nessa altura a nossa preocupação era detectar as formas precoces de linfedema fazendo com a equipa residente do Instituto de Medicina Tropical, despiste das microfilarias nocturnas e prescrevendo o tratamento  o mais precocemente possível.

Contudo a dietilcarbamazina, medicamento de eleição para a filariase, existia em escassa quantidade e mesmo a antibioterapia sistémica era limitada.

O ensino das normas higieno dietéticas e da compressão que fazíamos enquanto os doentes se encontravam na consulta ou no Hospital, eram ensinamentos de pouca duração, dado que voltando às suas habitações onde a água era escassa elas não iriam ser cumpridas.

Os peixes larvófagos que o governo da altura tinha comprado para colocar nos rios do norte onde os mosquitos era muito abundantes, tinham sido comidos pela população...

Era um trabalho inglório.

Farrajota, sempre persistente na defesa da patologia linfática, com outras equipas, voltou mais vezes à Guiné para tentar resolver alguns casos.

Apesar dos vários convites eu não voltei.

Para mim era uma situação frustrante, pela incapacidade que tínhamos e pela sensação de estarmos a tentar resolver um problema, quando em volta existiam n, que poderiam levar à morte muito mais precocemente.

Hoje as condições devem ser diferentes, mas continuo a pensar que os problemas que aqui apresento se mantêm de uma forma ou de outra.

Certamente o desenvolvimento económico é maior, mas as guerras e a instabilidade não são de forma alguma propícias ao controlo destas doenças que como afirmei, não levam à morte, mas sim à exclusão social e à incapacidade em países em que, a esperança de vida é reduzida.

Para nós, que estamos longe desta realidade fica-nos uma aprendizagem que é fundamental extrapolar.
Sabemos hoje em dia que a elefantíase e o agravamento do linfedema não se deve à situação linfática em si, mas essencialmente às múltiplas infecções de repetição (erisipelas/linfangites), normalmente com origem em pequenas portas de entrada nos pés.

A higiene diária dos pés (recomendamos pelo menos duas vezes por dia),  sobretudo agora, nos meses de verão, onde o calçado aberto é mais usado, a prevenção das micoses ungueais, o tratamento das calosidades e das unhas, o evitar de arranhões ou abrasões e a exposição marcante ao Sol,  são sem dúvida normas fundamentais para evitar o agravamento das situações linfáticas. Também a profilaxia antibiótica normalmente com penicilina mensal, deve ser prescrita e cumprida de forma rigorosa.

Só assim é possível evitar as formas avançadas da doença.

Por muitos tratamentos ou cirurgias que se tentem, nomeadamente de cariz linfático (anastomoses entre os linfáticos existentes e as veias), só com o cumprimento destas normas profiláticas básicas, será possível prevenir a progressão da doença.

Sem elas o agravamento será sempre inevitável.
Texto de:

o video que ilustra este texto:

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Manuela (L de linfa)