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Tratamento da elefantíase no HPV (CHLN) – apresentação de um caso

Filipe Pereira
Fisioterapeuta
A elefantíase como uma exacerbação não controlada de linfedema dos membros inferiores é muitas vezes ignorada e não encaminhada para tratamentos de reabilitação. Pode-se supor que este facto deve-se à condição crónica da doença e/ou ao desconhecimento sobre os resultados desta intervenção.

Porém, a intervenção da equipa de reabilitação nesta condição assenta na promoção da qualidade de vida através da redução e estabilização do edema, no ensino dos cuidados e estratégias, na orientação e na mudança de comportamentos. Infelizmente continua a ser comum recebermos doentes com anos de evolução da doença sem nunca terem feito qualquer tipo de tratamento.

No caso da elefantíase, esta condição pode assumir as proporções pela qual é conhecida pelo facto de não ser devidamente acompanhada. O diagnóstico e tratamento precoce são primordiais.

Encaminhada pelo Projecto “Sai da Concha” para a Consulta Externa de Fisiatria do Hospital Pulido Valente (CHLN), o caso que apresento trata-se de uma doente de 66 anos com linfedema primário bilateral dos membros inferiores desde os 20 anos, que evoluiu para elefantiase. Ao longo destes anos percorreu diversas especialidades medicas, fez tratamentos de fisioterapia e intervenção cirúrgica de redução do linfedema com resultados transitórios. Devido ao facto de não ter qualquer tipo de contenção, o linfedema continuou a aumentar de volume e a cirurgia deixou aderências e fibroses que aumentaram significativamente a organização (dureza) do linfedema. Além da dureza extrema, apresenta pele ruborizada. Com o peso dos seus membros inferiores progressivamente a aumentar desenvolveu artroses a nível dos joelhos e deformação a nível da articulação tíbio-társica direita, que afectaram a sua mobilidade. Actualmente com limitação funcional importante, desloca-se através do apoio de canadianas.

Com o iniciar dos tratamentos, foi também acompanhada pela equipa de enfermagem devido a ter desenvolvido uma ferida, como consequência da deformação do membro inferior direito pelo peso do membro, resultando em fricção constante da pele da zona maleolar interna no chão.

Foram prescritas 12 sessões de fisioterapia, as quais tentou-se que fossem diárias. O tratamento consistiu na Terapia Linfática Descongestiva (drenagem linfática manual, pressões sequenciais intermitentes e aplicação de bandas multicamadas), no estímulo para a mudança de comportamentos e na educação da doente e família para a importância dos cuidados a manter após os tratamentos. A aplicação das bandas multicamadas foi feita até ao nível dos joelhos devido à intolerância por parte da doente na aplicação até à raíz dos membros. Neste caso, o ensino à família deste método de redução/contenção foi essencial pois continuou a ser realizado diariamente.

Objectivamente, no final do tratamento observou-se uma redução na avaliação da perimetria. A nível da organização o edema ficou mole, tendo sido possível observar uma redução do volume acentuada na zona de maior edema e onde a bandagem multicamadas foi aplicada.




Registo iconográfico:



Como a foto abaixo mostra, os melhores resultados apresentaram-se sempre após o retirar da bandagem, com uma redução muito significativa de volume. Como esperado, nas horas seguintes os resultados regrediam progressivamente devido a não ter contenção. Com a continuidade deste procedimento é esperado que a pele e os tecidos subjacentes gradualmente retomem alguma da sua elasticidade prévia.



Estes resultados serão transitórios se não continuar a existir a contenção e
cuidados diários. Como foi dito, foi ensinada à família a aplicação da bandagem multicamadas, a qual continua a produzir resultados bastante satisfatórios, objectivamente e subjectivamente (como mostra a fotografia ao lado, gentilmente enviada pela doente no seu domicilio). A doente também continua a fazer o penso no seu centro de saúde e foram-lhe prescritas as suas primeiras meias de contenção à medida.

O processo de aquisição destas meias contou com a ajuda de técnicos ligados a esta área pois o excesso de pele provocado pela redução do linfedema com a acção da gravidade impedia a manufacturação destas. Para a medição, a doente foi com a bandagem realizada no domicílio e foram usadas técnicas de suspensão da pele que simularam a elasticidade e posicionamento normal dos tecidos, que aliado ao facto do linfedema se encontrar bastante mole, permitiram assim a sua produção.

Em suma, penso que a intervenção de toda uma equipa multidisciplinar teve um impacto positivo na vida desta doente, que ficou bastante satisfeita com os resultados obtidos e motivada para continuar a sua luta diária contra o linfedema.


texto de:
Filipe Pereira,
Fisioterapeuta

12 nov 2016 | Susana Duarte e Carla Carvalho, convidam-nos

 "UM DIA PELO LINFEDEMA" - no Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão

Susana Duarte e Carla Carvalho, Fisioterapeutas














Somos duas fisioterapeutas e a nossa profissão ensina-nos a dar qualidade de vida a quem procura os nossos cuidados. Nos tempos que correm, dar qualidade de vida é também educar e informar. 

Talvez por desconhecimento, sentimos que o linfedema é uma condição de saúde pouco divulgada, embora o seu impacto físico, psicológico e emocional seja digno de atenção por parte de todos nós. A nossa sede de formação levou-nos em Janeiro ao evento “Linfedema e Lipedema – das necessidades do doente às novidades terapêuticas”, organizado pela ANDLinfa. Daí à vontade de continuar este trabalho, foram dois minutos (se tanto!). 

Ambas temos formação específica no tratamento do linfedema e um grande prazer em trabalhar nesta área, então porque não fazê-la chegar a mais pessoas? 
Nove meses depois, aqui estamos! 

Esperamos proporcionar um excelente dia a todos os participantes através de diversos momentos de partilha e de informação

O Convite aqui fica para o dia 12 de novembro, a partir das 9:00h no Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão (brevemente o programa final).

Caso queira dar-nos o privilégio de juntar-se à inicitiva inscreva-se enviando um email para:
  gic-cmra@scml.pt 

A inscrição deverá conter as seguintes informações:
Assunto do Email: Inscrição na Conferência Um dia pelo Linfedema
Nome Completo
Situação Profissional (Ex.: utente, profissional de saúde, estudante ou outro)

programa  aqui


Impacto psicológico do linfedema associado ao cancro da mama

A doença oncológica é uma das patologias mais temidas da actualidade, à qual estão associadas conotações sociais muito simbólicas. É, muito frequentemente, sentida como uma sentença de morte antecedida por um longo período de sofrimento e degradação, tanto sob o ponto de vista físico como psicológico.

Para além dos aspectos psicossociais comuns às doenças oncológicas, o cancro da mama impõe problemáticas específicas na relação da mulher com o seu corpo, pois a mama tem uma representação altamente simbólica do feminino, da maternidade e da sexualidade. 

O diagnóstico de cancro da mama poderá fazer surgir respostas emocionais bastante intensas, as quais
podem ser agravadas pelas características da oferta terapêutica, por um lado a possibilidade de uma cirurgia mutilante, por outro a eventual realização de tratamentos agressivos como a quimioterapia ou a radioterapia. 

A dissecção dos nódulos linfáticos axilares que poderá acompanhar a cirurgia, leva a uma insuficiência do sistema linfático que pode, associada ou não a outros factores clínicos, levar à instalação do linfedema. 

Esta complicação pós-cirúrgica pode diminuir a qualidade de vida não só a um nível físico, constituindo-se como fonte de limitação e dor, como também a um nível emocional e psicossocial, afectando a funcionalidade da mulher, a sua relação com o corpo e a sua capacidade para levar a cabo os seus diferentes papéis. Além disto, poderá aparecer em qualquer fase após a cirurgia, sendo necessário manter as precauções e o alerta constantemente a um nível máximo.  

A instalação do linfedema pode provocar reacções emocionais intensas, nomeadamente tristeza, angústia e medo, associadas às mudanças ao nível da imagem corporal. Neste quadro, a discrepância entre a maneira como o corpo foi estabelecido mentalmente e a maneira como é percebido na realidade poderá ser bastante vincada, o que pode ser fonte de perturbação emocional e diminuição da auto-estima, especialmente quando a mulher já foi confrontada com o impacto emocional da cirurgia mamária em si mesma, constituindo-se assim como uma fonte de sofrimento adicional. 

Nestes casos de lindefema secundário é difícil para a paciente fazer a dissociação da doença de base, mesmo que esta possa estar perfeitamente controlada apesar do linfedema, pois esta complicação é uma problemática de saúde que relembra a toda a hora qual a terrível patologia que esteve na sua base, prolongando o sentimento de medo e vulnerabilidade face à doença oncológica.

Quando se instala, a natureza crónica do linfedema pode causar sentimentos de culpa (a mulher poderá associar o problema ao seu comportamento) e frustração (o tratamento poderá não conduzir a uma regressão total e rápida do linfedema). 

Para além destes aspectos, o linfedema constitui-se como um problema de saúde visível, o que poderá ter também um carácter estigmatizante, podendo afectar a forma como a mulher vivencia a relação com os outros, seja a um nível social mais amplo, ou a um nível mais íntimo na relação em casal. Este sentimento de estigmatização pode ser real ou percebido, sendo que neste último caso, o medo de ser rejeitada pelos outros, leva a uma interpretação abusiva de todas as condutas como tradutoras dessa mesma rejeição. 

A maioria das mulheres com linfedema considera este problema como tradutor social de um defeito ou desvantagem física, para além de que a sua representação simbólica associada ao cancro da mama lembra também aos outros, a toda a hora, esse mesmo diagnóstico.   

A capacidade funcional da mulher com linfedema fica constrangida, sendo que muitas vezes uma parte das tarefas laborais e domésticas não podem ser realizadas como o eram antes deste diagnóstico, afectando a mulher no desempenho do seu papel familiar e social e profissional. A este último nível, o natural e desejado regresso à actividade laboral poderá ser bastante prejudicado, dependendo também do tipo de tarefas físicas que acarrete, podendo causar até mesmo mudança de funções ou situações de incapacidade física para o trabalho permanente, o que é sem dúvida um acontecimento disruptivo na vida de alguém que está a tentar regressar à sua vida “normal”, a qual ficou em suspenso na altura do diagnóstico. 

Para o psicólogo que trabalha na área da saúde, em particular com pacientes sujeitas a este tipo de intervenção cirúrgica, a intervenção começa a um nível de prevenção logo após a realização da cirurgia. Este nível de intervenção constitui-se como um reforço das indicações dadas à paciente e integração das mesmas no dia-a-dia particular de cada mulher, ajudando-a a estar preparada para recusar procedimentos e intervenções, a encontrar estratégias alternativas aos mesmos, e ajudando-a a alterar a forma como leva a cabo determinadas tarefas. 

Quando o linfedema  já está instalado, é necessário ajudar a paciente a construir um modo de viver com essa problemática,  nomeadamente activando os seus recursos internos e ajudando-a a encontrar estratégias adaptativas,  aumentando assim o sentimento de controlo sobre a sua vida e sobre as exigências do dia-a-dia. Neste processo de adaptação, quanto mais controlo sentir sobre o mesmo, mais marcado será o seu sentimento de auto-eficácia, o que poderá também influenciar positivamente a auto-estima. 

A formação de grupos psicoeducativos de mulheres com cancro da mama e com esta complicação física em particular também se constitui como outra abordagem interventiva, os quais podem ter um carácter multidisciplinar como forma de potenciar os apoios oferecidos. O grupo funciona como um espaço de partilha emocional, identificação entre os pacientes ao nível das suas vivências, desmistificação de crenças de saúde desadaptativas, prevenção e resolução de problemas. 

É de salientar que neste processo poderão eclodir quadros psicopatológicos, sendo os mais frequentes quadros de ansiedade e depressão, os quais poderão necessitar de um apoio psicofarmacológico enquadrado num acompanhamento psiquiátrico, pois a presença dos mesmos  condiciona a capacidade de mobilização e adaptação, trazendo níveis mais elevados de sofrimento.  

Assim, podemos e devemos todos reflectir na extrema importância de acompanhar cada processo de forma individualizada, tendo em conta sempre a importância da esperança, coragem, auto-proteção e autonomização de cada pessoa, independentemente do grau de gravidade do quadro, para que cada um dos doentes com linfedema possa caminhar com determinação na busca pelo bem-estar físico e psicológico.

“Aprendi que a coragem não é a ausência do medo, mas sim o triunfo sobre ele”. Nelson Mandela


Ana Rita Appleton Vicente
Psicóloga Clínica 
Serviço de Psiquiatria e Saúde Mental do CHLN|
Unidade de Psicologia do Hospital Pulido Valente 

O impacto do linfedema visto por um fisioterapeuta

Quando fui convidado pela Manuela para oferecer um pequeno contributo a este blog, hesitei sobre que escrever. Actualmente a intervenção da fisioterapia no tratamento de linfedema está bastante difundida e os resultados dos tratamentos de drenagem linfática manual, pressoterapia, aplicação de bandas multicamadas e exercícios específicos estão comprovados pela evidência científica.

Assim em vez de escrever um texto técnico, decidi apresentar uma visão um pouco mais pessoal. Tentei reflectir e perceber se existe um denominador comum, a todos os doentes que tive a oportunidade de trabalhar. Da minha observação enquanto fisioterapeuta mas também como ser humano, o que provocou mais impacto?

A resposta surgiu de imediato. Mais que o impacto provocado pelas limitações funcionais relativas à limitação física imposta pelo linfedema, de maior ou menor dimensão, o grande impacto em todas as pessoas apresentou-se a nível emocional. Independentemente de idade, sexo, escolaridade, religião ou etnia, todas estas pessoas verbalizaram ou mostraram sentimentos mais negativos como por exemplo tristeza ou vergonha relativa ao seu corpo. Em casos mais extremos de elefantíase, algumas pessoas referem mesmo tentar esconder-se da sociedade. Mesmo os doentes com situações mais simples e com estruturas emocionais mais fortes, a certa altura, entre o bom humor, lá deixavam escapar uma certa mágoa ou insatisfação relativa à imagem corporal.

Mas o mais grave para mim foi verificar, mais que o minimamente aceitável, que actualmente ainda existem pessoas portadoras de linfedema que não tinham conhecimento de tratamentos para o seu problema. Apesar de se tratar de uma doença crónica, ainda sem cura, o aumento da qualidade de vida tem de ser visto como um direito de todos, independentemente da gravidade da sua condição. Nestas situações, deu-me particular satisfação observar autenticas reviravoltas nas vidas destes doentes. Presenciar recuperação não só física mas também emocional é muito gratificante para o fisioterapeuta que participa na intervenção multidisciplinar. E para todos os doentes, os tratamentos realizados bem como o aconselhamento foram ferramentas para o portador de linfedema encarar a sua doença com mais optimismo.

Felizmente a medicina está em constante evolução e nesta área é visível o aumento da diversidade e qualidade de ajudas técnicas. A este nível observo que todos os doentes tentam adquirir as ajudas técnicas que lhes são prescritas/aconselhadas, mas nem todos o fazem por questões económicas. Para as empresas particulares já estabelecidas, a área da saúde é uma área com grandes lucros, pois os doentes normalmente tentam fazer tudo para melhorar a sua qualidade de vida, por vezes adquirindo produtos, de inegável qualidade, mas com preços muitas vezes proibitivos. Porém, é esta mesma “lucrabilidade” que motiva as empresas deste ramo a melhorar e inovar os seus produtos.


Devido à crise económica mundial em que vivemos penso ser difícil esta situação mudar brevemente. O Sistema Nacional de Saúde não deverá aumentar comparticipações nesta área, nem tão cedo deverá alterar nada que aumente a globalidade, directa ou indirectamente, do seu orçamento a curto prazo. Apesar disto, a educação em Portugal na área da saúde é de nível elevado e de forma geral os serviços são dotados de profissionais de qualidade. No Hospital Pulido Valente tenho a felicidade de trabalhar com profissionais de excelência, dedicados em obter os melhores resultados e é com gosto que verificamos a satisfação dos nossos utentes. 

 Filipe Pereira
Fisioterapeuta

Tratamento do Linfedema também no Centro de Saúde de Beja


Sou Fisioterapeuta no Centro de Saúde de Beja e trabalho no apoio ás senhoras portadoras de edema linfático secundário a mastectomia desde 1996 quando fiz, juntamente com as colegas do IPO, o 1º Curso de Drenagem Linfática Manual que o Prof Leduc veio dar em Lisboa. Na altura eu já estava em Beja e já  apoiava estas utentes da região Alentejo enviadas pelo colegas do IPO ou pelo Prof Mário Bernardo com o principal objectivo de restabelecer as amplitudes articulares e corrigir atitudes viciosas,
aliviar na dor e fazer o ensino de atitudes do dia a dia a adoptar para  evitar o aparecimento  do linfedema.  O curso foi uma mais valia no sentido de tornar mais eficaz a diminuição e controlo do linfedema. No inicio fiz este trabalho no Centro  Fisioterapia São João Baptista onde já trabalhava em regime pós laboral e só mais tarde iniciei este trabalho também a nível do Centro de Saúde. São já alguns anos de experiência no apoio a estas utentes com resultados muito positivos que se reflectem não só  no carinho que me dispensam como na confiança que demonstram quando me procuram constante e periodicamente ou porque houve um agravamento, porque  precisam de uma nova manga, ou simplesmente porque querem ser reavaliadas e repetir o tratamento, porque efectivamente assim deve ser feito.

Há contudo uma questão que muito me preocupa e que talvez agora a Associação Nacional dos Doentes Linfáticos possa dar uma ajuda no sentido de encontrar uma solução para que o apoio a estas senhoras continue da melhor maneira. É que estas utentes são isentas de taxas moderadoras durante 5 anos. Mas terminado este prazo e após  nova ida à Junta de Incapacidade é-lhes retirada a isenção. Lamento muito porque
o linfedema é uma sequela com a qual têm de viver para sempre e que não podem descurar para que ele se mantenha controlado. O tratamento é demorado, complexo e caro!! Mesmo no Centro de Saúde!!!...

E para algumas senhoras não é possível suportar mais esta despesa...

texto e fotos de:
Laura Xavier
Fisioterapeuta no Centro de Saúde de Beja

Linfedema do membro superior

No âmbito dos 70 anos a CUF decidiu fechar a celebração com um evento formativo.

A Conferência que decorreu no passado dia 21, no CCB, teve como tema oncologia|cancro de mama.

"Linfedema do membro superior" foi um dos temas abordados e coube ao Prof Manuel Caneira, cirurgião plástico e estético, partilhar o seu saber e experiência com uma plateia interessada numa temática ainda pouco conhecida e experimentada.

apontamento: Manuela

Linfedema | sensibilizar no local de trabalho

O local onde trabalho não hesitou em concordar com a proposta que lhe foi apresentada e, no passado dia 6 de março, iniciou uma chamada de atenção sobre uma patologia que é praticamente desconhecida: o linfedema.

Foi com muito agrado que fui vendo chegar as respostas a um inquérito que foi lançado no dia que internacionalmente é cada vez mais apontado como o “Dia do linfedema”, o 6 de março. E, embora 73% das pessoas nunca tenham ouvido falar de linfedema, apercebi-me que 76% das respostas assinalavam, sem hesitação, que gostariam de passar a receber informação regular sobre esta patologia. 

Hoje, 6 de maio, a chamada de atenção culminou com uma palestra, um rastreio e com uma das atividades facilitadoras da circulação linfática: o Chi-Kung Terapêutico 

Nada se consegue sozinho. Também por isto, não posso deixar de agradecer a toda a equipa da Direção Municipal de Recursos Humanos que trabalha na divulgação e preparação do Programa 100% Bem, na Câmara Municipal de Lisboa.
O meu agradecimento, como doente de linfedema, vai também para o Dr J. Pereira Albino, figura incontornável no Linfedema em Portugal, peça fundamental para a sensibilização, divulgação e esclarecimentos desta patologia; para a Enfª Rita Marques, pela sua disponibilidade e envolvimento crescente com os doentes com linfedema; para a Enfª Rita Teixeira por, sem reticências, trazer a sua preciosa ajuda no ensino das técnicas do Chi-Kung Terapêutico. 
A todos os meus familiares, amigos e colegas que, de diversas formas, me apoiaram nesta iniciativa, aqui fica também o meu obrigada.
6  maio15



























Nota: para esta acção de sensibilização foi feito um folheto que já está disponível

O Linfedema da Filaríase

Infelizmente, grande parte dos países em que a filária  é endémica são países muito pobres e com grandes debilidades sócio económicas.
Predominam os países Africanos e Asiáticos, como podemos ver no mapa anexo, onde o controlo do principal vector, o mosquito (o mesmo da Malária, mas outras formas de mosquito também podem estar envolvidas), ainda se encontra longe de estar debelado.

A Nigéria, apesar das impressionantes imagens mostradas no vídeo que ilustra este comentário, é um dos países mais desenvolvidos de África.

Lagos, a sua capital, tem 21 milhões de habitantes, e o petróleo (como principal fonte de riqueza) tem feito com que o desenvolvimento sócio económico seja dos maiores de África competindo com, e mesmo ultrapassando o da África do Sul.

Contudo, continua neste país como noutros de África, a morrer-se de Malária, de SIDA e doenças pouco habituais como o atual surto de Ébola. Isto revela ainda condições sociais muito baixas, deficiências no controlo dos vectores associados a estas doenças e muito trabalho a realizar (na maioria dos casos por ONGs), na prevenção e tratamento destas doenças, e no aumento da esperança de vida.

A filaria com envolvimento linfático, entra assim como uma doença incapacitante mas não mortal, o que a nosso ver faz com que o tratamento seja mais negligenciado, chegando-se, pelas carências sociais, às formas elefantíasicas que são vulgarmente registadas nestes países.

Este doentes tem efetivamente  grande morbilidade e são, na maioria dos casos, alvo de  exclusão social.


A Farrajota
Falo com algum conhecimento da realidade. Em 1991 acompanhei a primeira missão que o meu ex. Director, Dr. Armando Farrajota, realizou à Guiné Bissau e que tinha como objectivo o estudo e tratamento do linfedema associado á filaríase.

Nessa altura a Guiné-Bissau vivia uma fase tranquila em termos políticos , mas as carências eram muito marcantes quer em meios humanos quer em condições de trabalho.

O nosso primeiro contacto com uma doente com linfedema/elefantiase teve lugar no mercado da cidade  onde uma mulher com um marcado linfedema se dedicava à mendicidade.

Um apelo pela rádio fez com que só num dia, na região norte da Guiné - Cacheu - tivessem vindo ao nosso encontro, cerca de 90 doentes com elefantíases marcantes, esperando que conseguíssemos alguma resolução da situação.

Alguns, com mais possibilidades, tinham sido operados em Dakar. Contudo apesar dessas cirurgias continuavam com infecções de repetição.

No Hospital Central de Bissau – Simão Mendes - vimos algumas formas agudas de filaria linfática com marcante envolvimento proximal dos membros.

Nessa altura a nossa preocupação era detectar as formas precoces de linfedema fazendo com a equipa residente do Instituto de Medicina Tropical, despiste das microfilarias nocturnas e prescrevendo o tratamento  o mais precocemente possível.

Contudo a dietilcarbamazina, medicamento de eleição para a filariase, existia em escassa quantidade e mesmo a antibioterapia sistémica era limitada.

O ensino das normas higieno dietéticas e da compressão que fazíamos enquanto os doentes se encontravam na consulta ou no Hospital, eram ensinamentos de pouca duração, dado que voltando às suas habitações onde a água era escassa elas não iriam ser cumpridas.

Os peixes larvófagos que o governo da altura tinha comprado para colocar nos rios do norte onde os mosquitos era muito abundantes, tinham sido comidos pela população...

Era um trabalho inglório.

Farrajota, sempre persistente na defesa da patologia linfática, com outras equipas, voltou mais vezes à Guiné para tentar resolver alguns casos.

Apesar dos vários convites eu não voltei.

Para mim era uma situação frustrante, pela incapacidade que tínhamos e pela sensação de estarmos a tentar resolver um problema, quando em volta existiam n, que poderiam levar à morte muito mais precocemente.

Hoje as condições devem ser diferentes, mas continuo a pensar que os problemas que aqui apresento se mantêm de uma forma ou de outra.

Certamente o desenvolvimento económico é maior, mas as guerras e a instabilidade não são de forma alguma propícias ao controlo destas doenças que como afirmei, não levam à morte, mas sim à exclusão social e à incapacidade em países em que, a esperança de vida é reduzida.

Para nós, que estamos longe desta realidade fica-nos uma aprendizagem que é fundamental extrapolar.
Sabemos hoje em dia que a elefantíase e o agravamento do linfedema não se deve à situação linfática em si, mas essencialmente às múltiplas infecções de repetição (erisipelas/linfangites), normalmente com origem em pequenas portas de entrada nos pés.

A higiene diária dos pés (recomendamos pelo menos duas vezes por dia),  sobretudo agora, nos meses de verão, onde o calçado aberto é mais usado, a prevenção das micoses ungueais, o tratamento das calosidades e das unhas, o evitar de arranhões ou abrasões e a exposição marcante ao Sol,  são sem dúvida normas fundamentais para evitar o agravamento das situações linfáticas. Também a profilaxia antibiótica normalmente com penicilina mensal, deve ser prescrita e cumprida de forma rigorosa.

Só assim é possível evitar as formas avançadas da doença.

Por muitos tratamentos ou cirurgias que se tentem, nomeadamente de cariz linfático (anastomoses entre os linfáticos existentes e as veias), só com o cumprimento destas normas profiláticas básicas, será possível prevenir a progressão da doença.

Sem elas o agravamento será sempre inevitável.
Texto de:
J Pereira Albino,

o video que ilustra este texto:

Podologia versus linfedema

Como pode a podologia ajudar um doente com edema linfático?
A Podologia e uma área das ciência da saúde que tem por objectivo o estudo e tratamento do pé. 
O edema linfático é caracterizado pela acumulação da linfa, causando limitações funcionais (eliminação das toxinas), estéticas e psicológicas. 
Os problemas nos pés com linfedema podem ter origem no próprio edema, meias, calçado e/ou ligaduras. 
As infeções fúngicas como onicomicoses (micoses nas unhas), dermatomicoses (micose na pele), erisipelas, onicocriptoses (unha encravada) são as situações mais frequentes provocado pelo edema ou pelas meias.

Que cuidados deve ter?
  • Nunca tentar auto tratar-se, procure sempre um profissional;
  • A higiene deve ser diária e secar muito bem os pés (usar secar de cabelo);
  • A hidratação deve ser em todo o pé excepto nos espaços interdigitais (a humidade provocada pelo creme ajuda a proliferação de fungos e bactérias);
  • Manter as unhas aparadas para evitar o contágio com fungos;
  • Usar sempre chinelos em locais públicos (hotéis, piscinas, ginásios, balneários, etc);
  • Inspecione uma vez por semana os seus pés.



Apresentamos o seguinte caso:


Mulher com linfedema bilateral e usa meias de compressão, recorre a consulta de podologia por queixas na unha do hálux direito. 

Apresenta uma onicocriptose ligeira com sinais inflamatórios, mas sem infeção,  tem dor à palpação. 

Fez-se a extracção da espicula e limpeza do canal ungueal, com a aplicação de uma gase gorda no canal de forma a evitar a pressão da unha no canal e promover a cicatrização do local. Troca de penso diária e reeducação da unha. 

Doente estabilizada ao final de 4 semanas

Olhe pela saúde dos seus pés.

Podologista

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Fisioterapia: a experiência para além da técnica!































Em 2007, no início da minha vida profissional, no Hospital Pulido Valente, tive a oportunidade de acompanhar de perto alguns pacientes com linfedema, aplicando as técnicas de drenagem linfática manual aprendidas durante a licenciatura em Fisioterapia.


Esta experiência permitiu-me perceber melhor o que é na verdade esta patologia e de que forma é que a fisioterapia pode ajudar estes doentes. Para além disto vivi uma grande experiência a nível pessoal, uma vez que aprendi que, apesar da incapacidade que esta patologia possa causar, é possível viver com ela encarando-a como uma barreira a ultrapassar e não como um obstáculo intransponível, visto tratar-se de uma doença crónica.


Foi realmente muito gratificante o tempo que passei com algumas das pessoas que sofrem desta doença, pois percebi que a melhor forma de encarar um problema é tentar buscar diariamente uma solução e nunca desistir de a alcançar.



Juliana Ricardo
Fisioterapeuta

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Aprender sempre…

Aprender alguma coisa nova todos os dias , uma vez numa formação ouvi esta frase e fiz dela minha.

Como pessoa e como profissional sou uma sortuda, na verdade aprendo todos os dias alguma coisa e até na verdade tenho muitos dias em que são muitas as aprendizagens.

Aprendi a ser enfermeira e melhor pessoa com os meninos guerreiros do piso 6 (que lutavam diariamente contra a leucemia ou a insuficiência renal), com os seus pais e com as maravilhosas colegas

Cedo descobri que me realizo e me torno verdadeiramente útil com pessoas que lutam diariamente e que não desistem facilmente, a seu lado sinto-me forte e capaz de tudo.

Desde Setembro de 2013 passei a ter mais um privilégio na minha vida profissional, o de partilhar tudo o que sei com  verdadeiras lutadoras portadoras de linfedema. Com elas tenho aprendido e alimentado a minha vontade de todos os dias fazer mais e melhor. A sua motivação, persistência, confiança, partilha e carinho têm sido uma energia inesgotável.

O sorriso porque conseguem calçar botas, ou voltar a andar de bicicleta ou simplesmente o afastar para longe uma nova crise de erisipela faz com que me sinta verdadeiramente orgulhosa de fazer parte desta equipa.

Obrigada!

Enfª Rita

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